“Professor, o que eu tenho que fazer na dinâmica de seleção? Preciso muito daquela vaga!”

 

Ouvi essa pergunta muitas vezes quando ministrava a disciplina Recrutamento e Seleção. Ela é muito compreensível, e nos revela sempre uma certa ansiedade e apreensão. Seja porque conhece e já participou de alguma dinâmica, seja porque nunca participou, e não sabe o que vai acontecer lá. É muito comum o candidato se inibir e muitas das vezes se retrair de tal maneira que bloqueia potenciais, talentos e habilidades que poderiam fazer a diferença na sua participação e contar a seu favor para a escolha da empresa. Esse “bloqueio” momentâneo impede a expressão de comportamentos espontâneos e o participante deixa de mostrar valores que possui.

Mas não nos enganemos, espontaneidade aqui, não é o conceito popular que às vezes encontramos em que as pessoas entendem esse termo como um processo de “soltar os cachorros” ou “falar o que der vontade” .

Estamos usando um conceito adotado por Jacob Levy Moreno, criador do Psicodrama, um dos mais completos e estruturados métodos de “Dinâmica de grupos” 

Moreno, ao adotar esse termo em sua metodologia psicodramática definiu-o como:

 

“A resposta ou reação que, fundamentada na percepção que temos do outro, de seus sentimentos e necessidades, e também com a adoção de empatia, reage com um comportamento que efetivamente o ajude naquele determinado momento”.

 

Sendo assim, espontaneidade para Moreno envolve aquela capacidade de entender o que está ocorrendo diante de si (perceber), mas também, saber colocar-se no lugar do outro para entender seus sentimentos e poder ajudá-lo (empatia). 

 

Espontaneidade= percepção + empatia.

 

Não se trata apenas de altruísmo, o famoso “ser bonzinho” nos relacionamentos, mas, de como agir para que as relações dentro do grupo, não prejudiquem sua capacidade de produzir bons resultados nas tarefas que receber. Além disso, agir entendendo que não sabe e não pode tudo, mas que com a participação de todos os membros se obtém melhores resultados.

No processo grupal de realizar tarefas em conjunto, são necessárias habilidades de atuação em grupo, que são requisitos para que funcione de forma eficaz e atinja seus resultados de forma ágil e completa.

Alguns dos quesitos do “bom convívio” e espírito de corpo que contribui para que os grupos funcionem bem são:

  • Comunicação (Ter clareza ao falar, dentro de uma sequência lógica e atento aos ouvintes, mas também saber ouvir quando os outros se expressarem);
  • Cooperação (Co-operar, é operar junto, atuar em concordância com o consenso grupal);
  • Percepção (Estar atento ao ambiente como um todo, observando detalhes relevantes para saber como agir em cada situação) ;
  • Assertividade (Capacidade de se afirmar quando argumentar, sem contudo,  prejudicar as relações com os demais membros do grupo);
  • Participação ativa (Colocar-se quando julgar importante para dar sua contribuição ao trabalho do grupo. Tal participação não considera sempre falar, mas manter contato visual com quem está falando, mostrando concordância ou aprovação, e se não, pedir a palavra para colocar sua ideia sobre o assunto);

De qualquer modo, é sempre um momento decisivo para cada participante pois, se trata de um processo contínuo de AUTOEXPOSIÇÃO E AUDIÇÃO.

Cada participante está ali, na presença de outros tantos concorrentes, e do selecionador e sabe, que tudo o que fizer ou disser estará sendo avaliado. A gente se lembra da famosa cena de filmes policiais, quando o policial prende uma pessoa e diz “- tudo o que você disser pode ser usado contra você!”.

Daí, travamos mesmo, se pensarmos assim. Então como agir, o que eu tenho que fazer, ou falar nas dinâmicas de grupo?

Sabe o famoso autoconhecimento de que tanto se fala na literatura de RH, ou de Psicologia Organizacional? Sim, precisamos refletir sobre nossas capacidades e dificuldades. As capacidades como habilidades e talentos são competências que, em ação, sempre iremos desenvolver. As dificuldades são oportunidades de nos desenvolvermos, ou seja, quando se tem claras nossas deficiências, podemos criar estratégias de superá-las e transformá-las em capacidades. É preciso investir em nosso crescimento embora, crescer sempre dói um pouco, Crescer tem um custo e às vezes mais emocional do que financeiro.

Precisamos estar abertos às novidades, pois, muito frequentemente temos que quebrar conceitos e ideias antigas. Dessa forma é que entendemos quando se fala em auto exposição e audição, porque quando agimos ou falamos, estamos nos expondo diante dos outros, mas a prática da audição do que os outros têm a dizer pode nos  dar uma noção de equilíbrio entre o quanto nos expor e quanto ouvir.

Processos de Recrutamento e Seleção tem utilizado diversas técnicas eu podem ser conhecidas pela extensa literatura e difusão no Mercado de Trabalho. Nem sempre os Testes e Entrevistas nos levam a uma escolha 100% segura. Sabemos bem que essa meta é mesmo difícil de se atingir, e podemos quando mundo conseguir 80 ou 90% de segurança. Sendo assim, para tornar a seleção mais assertiva, os selecionadores recorrem às dinâmicas de grupo que quando bem aplicadas podem propiciar aos responsáveis pela seleção a oportunidade de elevar seu grau de acerto na escolha porque lhes permite conhecer os aspectos comportamentais de cada candidato. 

Isso mesmo, as habilidades específicas como matemática, redação, cálculos avançados, uso de softwares, idiomas, etc…podem ser medidos por meio de testes o que é muito prático e objetivo, mas e aspectos atitudinais e comportamentais? 

Esses aspectos são mais fáceis de se observar e mensurar quando utilizamos boas dinâmicas. Boas dinâmicas, são aquelas que são elaboradas com base nas especificações da vaga a ser preenchida. São os quesitos  comportamentos, aqueles atributos de que falamos anteriormente. 

Para isso, são criadas dinâmicas que coloquem os candidatos em situações na quais ele precisa apresentar determinada atitude ou comportamento. A Psicologia nos mostra que a tendência de um comportamento presente na dinâmica tem alta probabilidade de se repetir na rotina diária de um funcionário. Patrícia Bispo para o rh.com.br entrevistou  Luiza Lopes sobre as dinâmicas:


“RH.com.br – Qual o papel das dinâmicas de grupo, no contexto dos processos seletivos?
Luíza Lopes – A dinâmica de grupo tem como finalidade propiciar aos responsáveis pela seleção a oportunidade de conhecer os aspectos comportamentais mais relevantes de cada candidato bem como quais competências, consideradas fundamentais para o processo em questão, o candidato apresenta com maior ou menor desenvoltura

RH.com.br – O que essas atividades podem revelar sobre o candidato?
Luíza Lopes – As atividades, dependendo da finalidade e da intenção de cada uma delas, podem revelar como o candidato se comporta em uma dada situação, sua postura, sua capacidade de argumentação e entendimento de tarefas, sua desenvoltura no trato com outras pessoas, sua preocupação com o tempo e a qualidade de suas entregas. Cada atividade estimula no candidato um padrão de respostas e permite ao avaliador, de acordo com as competências pré-determinadas, considera se o candidato soube ou não, e em qual intensidade se sobressai e supera os desafios presentes na proposta da atividade.”


A elaboração e a realização de uma dinâmica de grupo é preferencialmente coordenada por psicólogos Na realização da dinâmica de grupo é muito adequado se convidar um representante da área contratante, se possível o próprio chefe. Esses convidados irão tão somente observar e após o encerramento, e saída dos candidatos pode fazer suas considerações sobre a participação de cada um.

Observar os participantes atuando e interagindo nas tarefas propostas nas dinâmicas é um recurso extremamente rico para a tomada de decisão, inclusive, porque o representante da área contratante irá assumir a responsabilidade na decisão da escolha juntamente com o selecionador. Essa parceria é importante porque esse convidado e que irá acompanhar o desempenho do candidato escolhido ao longo de sua atuação dentro da empresa.

Assim, respondendo à nossa pergunta inicial: Cada candidato deverá agir de acordo com o que conhece de si mesmo, suas capacidades e limitações, porque se simular algo de que não tenha domínio poderá ser prontamente derrubado no aprofundamento da questão envolvida. 

Sua credibilidade e sua reputação estarão em jogo. Seja sincero e verdadeiro, isso o deixará mais tranquilo e o autocontrole permitirá que revele suas competências e o ajudará na avaliação final.

 

O professor Fabricio é Psicólogo, com especialização em Gestão de Pessoas, Psicodramatista e Mestre em Educação, Arte e História da Cultura.